A Fresta no Armário
Estes momentos esportivos decisivos, de forte tensão e impulsos, servem como "uma luva" para análises comportamentais sobre a ação de parte da imprensa até para os mais descuidados dos mortais. É quando cai a máscara, às vezes, definitiva, outras que revelam uma nesga, uma ponta, uma fresta do sentimento guardado num armário que ela (parte da mídia) imagina esconder a sua parcialidade, o seu fervor de torcedor.
A luta pela sustentação na Série A do Internacional proporcionou um destes acontecimentos constrangedores como a "ode" a Abel Braga até como (ainda que metaforicamente) a produção de uma estátua para ele, revelado o "dane-se o que ele disse".
Enquanto a sociedade luta para romper com injustiças históricas e com campanhas mundiais para o fim do preconceito em quaisquer de suas vis formas, aí com forte atuação da mídia em sua diversidade de formatos, eis que presenciamos a patrola da intolerância atropelar por conveniência esta constrangedora fala do treinador vermelho, com certeza, nos últimos tempos, a mais contundente manifestação pública homofóbica.
Pois ela recebeu uma atenção mínima, em menor escala do que a dada àquela de Ramón Diaz sobre ser o futebol "para homens e não para meninas", mas, eu entendi (e não aceitei), afinal era Abel Braga e sua história no Coirmão, aí pode, assim entendi pelo comportamento desta parcela da imprensa. Entra Niccoló Machiavelli e sua obra O Príncipe.
Alguns históricos jornalistas que registraram a frase de Ramón Diaz, ignoraram por completo a de Abel, parecendo tentar "deixar quieto", "melhor não mexer" em suas colunas, outros, destacadas vozes na busca pela reparação e equidade social, justificaram como sendo dita "na tentativa de mexer com os brios do grupo". Ora, este raciocínio vale para as palavras do treinador argentino recém saído.
Esta justificativa se equipara a do racista, que afirma "era só uma brincadeira" ou ao misógino, "não sabia que ela era tão sensível".
Resumindo: o estrago homofóbico, em especial, ao evento Outubro Rosa, segundo essa parcela da imprensa, se justifica, porque o elenco precisava de "uma sacudida".
Então, uma merecida estátua para Abel, ele estava na casamata no derradeiro jogo. O resto, bem, o resto é o resto, é choro de gremista secador ou apenas um detalhe.