Pequenas Histórias (188) – Ano – 1986
A Revanche de China
Em Março de 1986, o
Brasil ainda estava em transe, surpreendido por um plano econômico que
“congelou” os preços e apresentou mais uma moeda na história brasileira, desta
vez, o Cruzado. No timão da economia, o ministro Dilson Funaro ditara novas
regras em 28 de Fevereiro para domar a inflação que começou a declinar, depois
de ter alcançado mais de 100 % ao ano em Junho de 82, permanecer sempre na
ascendente no estertor do período da ditadura militar, chegando a mais de 200 %
em Novembro de 84 e 256% em Fevereiro/86. Só quem viveu sabe como era duro
comprar um produto num dia e no seguinte, o preço já não era mais o mesmo.
Apesar destes
solavancos no bolso, a vida prosseguia e nem tudo era tristeza e apreensão,
especialmente para nós, gremistas, que havíamos retomado a hegemonia regional
no ano anterior e sem saber à época, que um hexacampeonato estava por chegar
(85,86,87,88,89 e 90).
Naquele mês, assisti o
meu primeiro Grenal no estádio Beira-Rio. Eu e mais de 35 mil pessoas numa
tarde de Domingo. O Tricolor liderava o campeonato e poderia ampliar a
vantagem.
Valdir Espinosa mandou
a campo: Mazaropi; Raul, Baidek, Luís Eduardo e Casemiro; Paulo Bonamigo,
Osvaldo e Luís Carlos Martins; Caio Júnior, Albeneir e Valdo. China, o grande
personagem do clássico, entraria no lugar do atacante recentemente falecido,
Caio Júnior.
O Inter de Otacílio
Gonçalves da Silva Júnior compôs com: Cláudio Taffarel; Luís Carlos Winck,
Pinga, Aloísio e Marco Aurélio; Marquinhos, Airton e Tita; Sílvio, Sabará e
Balalo. Silvio deu lugar a Robertinho na única troca vermelha.
Para os mais jovens é
de estranhar a ausência de dois nomes nesta escalação; Renato e China. O
primeiro estava impossibilitado de jogar e o segundo vinha sendo contestado
pela torcida e seu futebol sempre útil estava sendo atropelado por uma dupla de
centro-médios de muitíssima qualidade, Bonamigo e especialmente, Luís Carlos
Martins; então o volante formado no 14 de Julho de Passo Fundo, amargava uma
inédita reserva naquele ano. O que fazer? O time engrenara sem ele; estava
líder e invicto, o jeito era esperar uma brecha.
Para este clássico em
que estava 3 pontos à frente (cada vitória valia 2 pontos), jogando na casa do adversário, Espinosa
recheou o meio fazendo Caio Júnior e Valdo atuarem na mesma linha de Osvaldo, à frente
dos dois volantes, deixando isolado o “socrático” Albeneir na briga contra os
defensores colorados.
A estratégia deu certo
e o Inter não conseguiu furar o bloqueio azul. O 0 a 0 do primeiro tempo
escancarou a escassez de oportunidades de gol.
Na etapa final, o Coirmão teve duas chances de marcar; numa Luís Eduardo, considerado o melhor
em campo, travou chute de Sabará. Na segunda, Mazaropi brilhou em chute do
ex-gremista Tita.
Espinosa resolveu
fechar mais o time, promovendo a entrada de um especialista na marcação: China,
retirando o avante Caio Júnior. Um empate no Grenal faltando 8 partidas, sendo
4 em casa, não era nada desprezível (sempre lembrando que vitória valia 2 pontos).
Aí, ocorre o lance quase
único de ataque gremista na etapa derradeira: China usando o pé esquerdo,
desfere um petardo do “meio da rua” e vence Taffarel. Golaço. Decorrem 36
minutos. O Grêmio havia chutado uma vez apenas, Osvaldo aos 26 minutos com o
goleiro pegando.
Era a redenção do
volante campeão do mundo. O jornal chegou a utilizar a expressão o
“marginalizado” para definir sua situação. Exagero, certamente, porém, China deu uma bela resposta às vaias e
pedidos de seu afastamento dos onze.
Com o 1 a O definitivo, o Imortal disparou
naquele primeiro turno; foi a 17 pontos com 8 vitórias, 1 empate e zero
derrotas, portanto, 1 ponto perdido.
Ele garantiu o título
da primeira fase e mais adiante meteu a mão no caneco, virando bicampeão em
86.
Ele ainda jogaria no
Grêmio até 1987, novamente titular com o jovem treinador Luiz Felipe Scolari.
China foi o
herói do meu primeiro Grenal em estádio. Curiosamente, eu não havia visto um clássico sequer com quase 27 anos.
Fonte: Arquivo pessoal
do amigo Alvirubro
