Pequenas Histórias (49) Ano - 2005
Sob o Céu que nos
protege
Cresci, ouvindo meu pai dizer que as
conquistas do Grêmio eram sempre difíceis; para exemplificar, ele rememorava o
Campeonato Farroupilha em 1935, quando foi uma das testemunhas daquele marco
histórico. O Coirmão estava sendo campeão faltando cinco minutos e viu o Tricolor
buscar o resultado, além de perder o goleiro Lara para a Eternidade.
Eu presenciei o título de 77. Mágico e inesquecível, mas
com dose de drama, pênalti perdido e invasão de campo. Em 81, a virada
fantástica em cima do São Paulo, novamente com pênalti perdido. 83, gol
improvável de César, quando o Peñarol era melhor em campo; o Mundial em Tóquio,
que escorreu pelas mãos no tempo normal, faltando três minutos para que
pudéssemos soltar o grito de “É Campeão”; todas as finais da Copa do Brasil
foram no sufoco. No entanto, a maior emoção, o maior orgulho, maior feito, sem
dúvida, tem nome e sobrenome: A Batalha dos Aflitos. Uma conquista menor que
virou manual de superação e prato cheio para escritores e palestrantes de
autoajuda.
Dois heróis daquela tarde de domingo, naquele evento que
poderia se chamar “Sete Homens e um Destino”, um ano antes estavam engatinhando
no elenco profissional azul; Galatto era o quarto goleiro em 2004; na sua
frente Tavarelli, Márcio e Andrey. Anderson, 16 anos, uma ilha de esperança num
mar de mediocridade, onde desfilavam Capones, Bilicas, Lucianos Ratinhos,
Ricos, Marcianos e outras “entidades”. O então atrapalhado treinador Cuca
guindou dos juniores, o menino jeitoso que já no seu primeiro Grenal, meteu o
dele, cobrando falta.
Criar um roteiro parecido como este; ou seja, sobre o maior feito que um clube de futebol
protagonizou é tarefa impossível. Podem juntar Paulo Santana, Eduardo “Peninha”
Bueno, Humberto Gessinger, José Pedro Goulart, Carlos Gerbase e Jorge Furtado, gremistas ilustres,
e nem no maior desvario e delírio de fanatismo, conseguiriam produzir aquele
script.
Chamem de incompetência, má administração ou coisa que o
valha os dois rebaixamentos, que eu chamarei de momento onde a trajetória teve “apenas
duas pegadas na areia”. Ali, o Grêmio já sentia o sopro da Imortalidade bafejar
a sua face. Algo divino carregou nosso clube nos ombros naquele deserto, quando
lhe faltou comando.
Lembrar, detalhar, descrever aquele épico é irrelevante,
conhecemos a história: o regular Patrício, as torres imperfeitas e quase gêmeas
que chamávamos de zagueiros (Domingos e Pereira), o menino prodígio Lucas, o
maestro Marcelo Costa, o azougue Ricardinho, os raçudos Marcel e Lipatin, enfim,
conhecemos todos os protagonistas; mais! A partida, segundo a segundo,
especialmente aqueles 71 que separaram o milagre de Galatto e o balançar das redes
do Náutico Capibaribe. Todos jamais esqueceremos o que fazíamos, onde estávamos
naquele final de Novembro de 2005.
Quando ocorreu o segundo pênalti, o Grêmio com o número
mínimo de sete jogadores, os foguetes vermelhos estouravam próximo a casa de meus
pais, onde eu e meu irmão, já
quarentões, assistíamos aquilo que poderia ser um jogo normal que virou façanha.
Levantei da cadeira, encostei a cabeça junto à porta e chorei, revivendo o
adolescente que sofria com a escassez de títulos nos anos 70. Após o milagre do
nosso goleiro, só voltei ao “ar”, quando Marcelo Costa bateu rapidamente a
falta e depois fiquei sabendo que falava baixinho, mas de forma impositiva ao
garoto Anderson; “Vai neguinho, vai neguinho!!!” e ele disparou, arrancou,
desbravando a zaga do Timbu pernambucano até dar aquele “tapa” na bola que matou o
arqueiro Rodolfo.
Próximo dali, pretensiosamente o Santa Cruz dava volta
olímpica no Arruda como campeão brasileiro. Azar dele! Esqueceu que o Grêmio é
Imortal.
No futebol, o Grêmio é único. Nada
pode ser maior.
Desculpas a quem já leu:
ResponderExcluirIncrivelmente errei o título. Agora está correto.
Legal o texto Bruxo.
ResponderExcluirSem dúvida foi um dos jogos mais tensos e dramáticos da minha história como torcedor. Também não concordo que aquilo tenha coroado a mediocridade, ou algo assim.
É claro que a conquista, do jeito que foi, acabou apagando da história muitos erros que quase culminaram na perda do acesso a séria A. Mas o jogo em si deve sim ser lembrado e comemorado. Não há o porque tratá-lo como uma vergonha na história do Grêmio... Os erros vieram antes, aquilo foi a superação que nos separaria de um fim trágico.
Enfim, que a vitória fique marcada na história. Mas que, com o passar dos anos, também não seja esquecido os erros que nos levaram até ali. Esperamos repetir feitos como este na elite, disputando títulos que precisamos (e merecemos).
-x-x-x
Uma sugestão para os teus relatos, principalmente os mais recentes na história. Como há muitos videos interessantes disponíveis no youtube, seria legal "ilustrar" o relato com um video marcante, como por exemplo um gol e etc. É uma forma a mais de recordar a história.
Guilherme!
ExcluirExatamente isso. O evento 7 contra o "mundo dos Aflitos" é que é celebrado. Se você não leu o livro 71 Segundos do Luiz Zini Pires, deve correr até uma livraria e adquirir.
Obrigado pela dica dos vídeos.
Já tive a oportunidade de ler Bruxo. Bom livro.
ExcluirA propósito, estou começando a ler um livro que talvez te interessaria, por tu gostar da história do tricolor. 'Grêmio - Hoje e Sempre. A história tricolor em cada dia do ano', de Fernando Leite e Vicente Fonseca.
Basicamente é um 'calendário', do dia 01/01 à 31/12, com os principais acontecimentos da história em cada dia do ano.
Se para alguns não há o que ser comemorado, pra mim há sim e muito! Foi ali que me tornei gremista. Não que antes deixasse de trajar o manto tricolor - presente dos meus velhos - com direito a boné e calção, mas aquele foi o marco que iniciou minha trajetória de Grêmio, que me introduziu em sua mística e me fez querer acompanhar o futebol. Estava em Cuiabá, apartamento de um amigo, onde fora prestar o vestibular em companhia de outros dois amigos. Eu e meu velho, a época um sessentão, assistiamos o jogo na sala, aos poucos os outros se juntaram. Quando marcado o penalti a minha desesperança foi completa, eu insistia na frase que ainda hoje repito para aplacar a dor - bem feito, não fez por merecer tem que perder mesmo. O anfitrião, São Paulino, filho de gaúchos, vendo a desesperança dizia que para o Grêmio tinha que ser assim, que aquele diabo de time gaúcho tinha algo que não se explicava. Ele, são paulino, entendia mais de Grêmio do que eu. O resto da história todo mundo conhece, objetos quebrados, choro, grito e 2 são paulinos, 1 palmeirense e 2 gremistas comemorando, o título, o acesso, o fim da dor. Histórias como a minha são milhares, ignorar isso é acreditar que o sangue de De Leon não retrata nada mais que uma fatalidade. Não se pode ignorar o evento, o fato, mas o contexto que nos levou à famigerada série B também não poderá ser esquecida sob a pena de termos de repetir façanhas irrepetíveis.
ResponderExcluirObs. Não poderia deixar de dizer. Quando eu disse para minha namorada que torcer para o Grêmio era diferente, que o time era diferente ela não entendeu, eu tentei falar de mística, de aura, de luta, de raça, de técnica, mas nenhum conceito conseguiu abranger. Talvez se ela sentisse esse arrepio, essa sensação indescritível só de escrever sobre o Grêmio, talvez se o coração acelerasse e as extremidades gelassem a cada escanteio, a favor ou contra, ela pudesse ter, ao menos em parte, a real dimensão do que é esse clube. Eu me tornei gremista depois da batalha e eu percebi que não se escolhe ser gremista, se é escolhido pelas vicissitudes da vida, se é maculado neste misto de benção e maldição.
Valeu, PJ!
ResponderExcluirÉ muito bom sabermos que daqui a várias décadas (o teu caso, eu acho que estarei noutra dimensão)relataremos às crianças que fomos testemunhas desta epopéia.